A avalanche de sons

 

Hugo acordou com um certo zunido nos ouvidos. Na verdade, nem sabia se o ruído vinha de fora ou era um som interno, que não conseguia identificar.

Aos poucos, diferentes sons eram ouvidos e tinha a impressão que várias pessoas falavam ao mesmo tempo, bem perto de si, além de outros barulhos.

As paredes estalavam, os cabos de luz produziam pequenas alternâncias de ruídos, como movendo-se levemente e até mesmo os plugues das tomadas emitiam sonoridades estranhas. Parece até que borboletas batiam asas próximas ao seu rosto e um cri-cri de grilos se alternava com zumbidos de mosquitos.

Estaria sonhando, pensou.

Levantou-se rápido e foi até a janela. Viu pequenos agrupamentos de pessoas na calçada e um burburinho intenso, como se estivessem à espera de algum acontecimento grandioso. Puxou os óculos da ponta do nariz e tentou enxergar do outro lado da rua.

As sacadas do prédio da frente estavam repletas de homens, mulheres e crianças, todos envolvidos numa balbúrdia animada. Até balões coloridos as crianças soltavam e por vezes, estouravam aumentando ainda mais o tumulto.

Hugo decidiu afastar-se da janela e tomar um banho. Faria as atividades habituais, como sempre.

Logo em seguida, iria ao Café Belém para o desjejum e jogar conversa fora com os amigos.

Não demorou muito, estava na rua, dirigindo-se ao Café, ouvindo cada vez mais forte o ruído que aumentava a cada pequena aglomeração que se formava na calçada. <br />

Quem os visse de cima, observaria uma massa escura e uniforme que fazia e se desfazia em blocos, dividindo-se em alaridos desorganizados. Por sorte, a turba agitada e frenética vinha de outra esquina e ainda não tinha chegado às proximidades do Café com toda a sua extensão.

Finalmente, entrou no Café, no qual percebia poucas mesas vazias, na verdade, apenas duas, uma bem perto da tv gigante que ficava sempre ligada na Globo, o que o irritava profundamente e outra próxima à janela, que dava para a rua do lado.

Cumprimentou a moça da caixa, que sorriu, mas de modo estranho, pois não ouviu som algum. Parece que todos estavam calados e se falavam, era como um filme mudo.

No bar havia silêncio absoluto. Por um lado, Hugo deu graças a Deus, afinal, era tanto ruído, tanta loucura que o ideal era passar o dia no Café Belém.

O garçom, velho conhecido por trabalhar há bastante tempo na casa, aproximou-se e ele pediu o de sempre: café preto, um pão com manteiga e um pratinho com frutas. Podia ser mamão e um kiwi cortado em rodelas.

O garçom sorriu, anotou o pedido e afastou-se sem dizer nada.

Que estaria havendo agora? Todos em silêncio.

 

Voltou o pescoço para trás para ver se a tv estava ligada. Apenas uma imagem imóvel de um comercial de xampu, sem qualquer som.

Hugo começou a sentir um certo frio, talvez até temor pelo que estava acontecendo. Seria só com ele? Será que os demais se comunicavam e ouviam muito bem o que diziam? Será que estava enlouquecendo? Ele, um homem com tantas ideias muito bem articuladas sobre vários assuntos, um literato, um homem de cultura, engajado política e socialmente na sociedade e agora… o que estava ocorrendo no mundo, meu Deus?

Um ruga de preocupação marcava a testa de Hugo e seus olhos se voltavam para todos os lados, observando as paredes, o balcão de granito com seus vários bancos à espera de clientes, as mesas ao centro quase que completamente preenchidas, a não ser aquela próxima à tv. Hoje não haveria problema, pensou, afinal, a tv estava muda e não incomodaria ninguém. Poderia até sentar ali, na frente daquela imagem de mulher alisando os cabelos, patética, olhando o nada, a boca entreaberta querendo dizer algo que não se articulava.

Percebeu o garçom aproximar-se com o café e animou-se um pouco.

Agora poderia falar-lhe, perguntar por exemplo, sobre o futebol, ele que era um gremista fanático. Até tentou fazê-lo, mas o outro afastou-se em seguida, deixando na mesa o pedido, apenas exercendo um sorriso formal.

Hugo ainda perguntou, assistiu o jogo ontem?, mas o garçom voltou-se, apertou o seu pulso de modo consensual para dizer alguma coisa ou ser apenas gentil e afastou-se novamente em silêncio.

 

Hugo reclamou, que merda, que ninguém fala nada! Mas decidiu tomar o café e dedicar-se à leitura do jornal, que como sempre, o garçom, já na sua chegada, deixara sobre a mesa da qual ele se aproximava.

Hugo leu a notícia sobre Temer que criticava o Mercosul, o qual deveria ser repensado; fez um cara de repulsa e dobrou a página.

Antes de ler a crônica do Juremir Machado, deu uma passada de olhos pelas pessoas que estavam no local.

<p>Numa das mesas havia dois homens conversando animados, um deles apontava para um tablet, mostrando algum post engraçado ou vídeo, não conseguia ver. Entretanto, nada se ouvia, como os demais, apenas aquele fechar e abrir de bocas, gestos espontâneos e empurrões em cadeiras em pleno silêncio. Só faltava ser em preto e branco para completar os quadros sequenciais, pensou Hugo. <br />

Olhou para os demais, um casal e duas crianças noutra mesa. A menina que devia ser menor que o menino, chorava fazendo uma careta terrível, pedindo alguma coisa que os pais negavam. O homem parecia nervoso, mordia os lábios e a mulher falava, estabanada, movendo os braços e mãos como se combatesse os próprios gestos para evitar bater nas crianças. O menino estava entretido no celular e este sim, estava em silêncio, embora o ruído eletrônico do bichinho em suas mãos devia ser insuportável.

Numa outra mesa, havia um homem sozinho. Vestia terno e trazia consigo uma mochila que parecia pesada, pois escorregava a todo momento pela cadeira, caindo no chão. Devia ser muito desastrado, pois cada vez que retirava alguma coisa da mochila, como o celular ou a carteira do dinheiro, esta retomava o mesmo processo de cair. Tudo em absoluto silêncio.

Havia outros, muito mais, mas Hugo desistira deles e decidira tomar o café.

Estava delicioso, aquele pãozinho com manteiga derretendo sobre a massa enfarinhada lhe aguçava a saliva e o prazer.

Pediria outro certamente e mesmo que viesse em silêncio, mas assim daquele mesmo sabor, estava ótimo. Depois provaria as frutas em fatias perfeitas, como pedira. O pessoal do Café Belém conhecia o seu paladar.

Foi o que fez. Deixou o jornal de lado e partiu para o ataque naquele desjejum sóbrio e prazeroso.

Depois ficou observando o garçom, as atendentes que traziam as refeições, o pessoal da cozinha.

Todos pareciam muito corteses uns com os outros. A moça da caixa também mostrava-se gentil com os que entravam ou saíam do estabelecimento.

Hugo procurou entre os seus pertences, uma caneta e um pedaço de papel. Elaborou um pequeno comentário que faria na Sociedade Literária, na qual participaria mais tarde.

<p>Estava bem disposto, saudável e com muito ânimo para pôr em prática os seus projetos, por isso comporia um pequeno esquema do trabalho. <p>Sabia por onde começar e o faria por emitir posicionamento político em seus textos, embora soubesse de antemão que o grupo desaprovaria qualquer questão que não expressasse exclusivamente o sabor da brisa e o aroma das almas. Mas isso era irrelevante naquele momento. <br />

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Depois de guardar o papel e a caneta no bolso, levantou-se, deu um bom dia ao pessoal do balcão, que retribuiu com um aceno e alguns sorrisos.

Dirigiu-se à caixa, antes passando pelo garçom que se deslocava pelo corredor com um bule numa bandeja e despediu-se apenas com um aceno, porque sabia que receberia o mesmo.

Na caixa, passou o cartão na leitora, cumprimentou a moça com um sorriso e dirigiu-se à porta envidraçada.

Percebeu que nem o salto de seus sapatos faziam qualquer ruído.

Por um momento, observou pela vidraça, centena de pessoas que transitavam de um lado para o outro, como se várias procissões andassem em sentido contrário.

Ainda olhou para trás para ver se as pessoas em suas mesas continuavam conversando e viu que o processo era o mesmo: muita conversa, muito sorriso, muitos gestos e muito silêncio.

Então, segurou firme a maçaneta e empurrou a porta com cuidado. Nisso, uma avalanche de sons, gritos, buzinas, estrondos de rojões, gritarias, ambulâncias, polícia e bombeiros, tudo misturado expandia em seus ouvidos, deixando-o zonzo e assustado.

Por isso, puxou-a com força, lacrando-a para sempre e correu para a sua mesa.

Ali, restava um silêncio absoluto.

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