A barca e a biblioteca: um romance como livros foram sitiados também em tempos de recessão

unnamed

É a trajetória de um bibliotecário que aos poucos vai se inteirando da verdadeira história de seu pai e o quanto ela ainda o influencia nos dias atuais, forçado a recorrer ao passado e reconhecer nele um caminho novo, de liberdade e orgulho, que não identificava anteriormente. Uma história que vai modificar e completar a sua. Com o conhecimento destas vivências, cresce como ser humano.

Tudo começa nos anos sessenta, cuja curiosidade infantil o impulsiona a conhecer determinados documentos que parecem comprometer o pai, e que tanto o angustiavam pelo forte conteúdo político que continham.

Ao mesmo tempo, levava a vida de menino, confrontando a fantasia de aventurar-se na barca à beira do cais, sempre impedido pela mão forte do pai, enquanto, que através de outros caminhos, imergia no mundo sagrado da biblioteca, batizado que fôra nas letras, podendo singrar os mares tal como os navegadores antigos, sem que houvesse qualquer intervenção. Aqui ocorre a metáfora da barca que não ousara entrar, mas que se materializava no ambiente dos livros.

Em meio a tudo isso, há a luta política do pai, como voluntário no movimento da legalidade, quando Brizola instalava a rádio nos porões do Palácio. Em decorrência destas atitudes, fôra perseguido e torturado, a partir da derrocada da liberdade pelo advento da ditadura.

Na fase adulta, envolvido com os documentos confidenciais do pai, misturam-se personagens que gravitam em torno deste mistério, na trama que ocorre no cenário de uma biblioteca, chegando ao ápice, a partir de um crime.

Nesta atmosfera misturam-se sentimentos muito fortes, mas bem distantes dos relacionamentos idealizados de sua infância.

Contratempos num passeio de bicicleta na praia

Não sou muito bom em tarefas manuais. Não tenho as habilidades básicas, nem para trocar o cartucho na impressora, mexer com parafusos ou arrumar a correia da bicicleta. Não é meu jeito, que fazer. Tenho outras habilidades, graças a Deus. Mas devido a esta falta de jeito, muitas vezes, passo por perrengues nada agradáveis.

Outro dia, ao entardecer, estava passeando de bicicleta pela praia, um fim de tarde lindo, o sol se pondo e as águas translúcidas pela pouca luz que restava. Dava gosto de ver. Fui indo, com o vento a favor, em direção à barra e nem me dei conta que a noite chegava rapidamente.

Decidi voltar e de repente, a correia da bicicleta travou. Na verdade, deslocou-se das engrenagens da coroa da pedivela (rodas denteadas, pesquisei) e a catraca da roda traseira.

Então, virei a bicicleta e tentei recolocá-la, sem nenhum sucesso. Engraxei as mãos, tingi as unhas e os dedos, mas tudo o que fazia, aumentava mais o enredo que se formava. Quanto mais tentava resgatar o emaranhado, mais se embaraçava a correia e a coisa ficava pior.

Não tinha jeito. Enredava mais e mais. Por vezes, a coisa quase se acertava.

Olhava detidamente tentando descobrir o imenso quebra-cabeças que se formava.

Puxei com cuidado uma parte da corrente que me parecia mais solta, mas para minha surpresa, ela se engatava de um lado e se soltava do outro, formando umas argolas difíceis de desmanchar.

<p>Sentei-me no chão, emoldurando o calção de areia, molhado que estava da praia, pois havia tomado um banho rápido antes.<br />

<p>Tentei desta vez, fazer uma limpeza, sem ter qualquer instrumento adequado, a não ser minhas próprias mãos. Encontrei uma espécie de taquara, acho que era isso, talvez de pandorga ( ainda utilizam taquara nas pandorgas, como no meu tempo?) e investi decidido na limpeza da areia molhada que se acumulava entre os dentes. Quem sabe assim, ficava mais fácil de colocar a engrenagem em ordem. Pura ilusão, cada vez que eu tentava engatar uma parte, a outra se destrambelhava toda, tornando tudo um caos.<br />

Comecei a pensar que deveria seguir em frente, a pé.

Levantei-me, cheio de areia, os chinelos transbordando lama, por ter passado no riacho, produzindo rápido a mistura que os deixava praticamente fora de uso.

Mas não havia alternativa. A noite se aproximava, as pessoas rareavam cada vez mais e eu precisava tomar uma atitude, ou seja, a única viável para aquele momento insólito: voltar para casa com a bicicleta a cabresto.

Fiquei tanto tempo envolvido com aquela tarefa sem resultado, que a noite chegou rapidamente e com ela, o vento que se intensificava, me empurrando para a direção oposta. Tinha a impressão que estava num deserto, com ondas de areia que se formavam ante meus pés como nuvens brancas, que se misturavam céleres com as pequenas lagoas que atravessava, voando na direção das dunas. Assim é o Cassino, quando o tempo muda.

Ao longe, observava na luz tênue, os cata-ventos que se espraiavam na névoa e uma nuvem escura se afunilava no céu, ameaçadora, anunciando uma tempestade que talvez surgisse a qualquer momento.

Sentia o vento fustigar meu tórax sem camisa e um frio inesperado me atingia, nem sei se pela influência da natureza ou pela ansiedade que se intensificava.

Não era nada assustador, daqui a pouco estaria em casa, talvez 40 minutos ou 1 hora de caminhada, nada demais.

Mas o cansaço e a luta embrenhada contra o vento produziam a atmosfera necessária para o medo.

Entretanto, nem tudo parecia perdido, apesar da minha inabilidade em consertar coisas ou fazer trabalhos manuais, havia a possibilidade de ajuda de alguém.

Quem sabe alguém que viesse num dos carros que vez que outra passavam por mim, quem sabe um deles pararia e me ajudasse. Ou mesmo o caminhão da limpeza, que imaginava que passasse àquela hora na praia.

Por outro lado, conjecturava que eles nem pensariam em parar, afinal, a noite se aproximava, o tempo estava ruim, o vento forte e eu poderia ser um marginal que oferecesse algum perigo.

Por certo, não parariam.

Ninguém me ajudaria àquele hora.

Mas meus pensamentos se dissiparam como gelo na água. Foi de repente que aconteceu e nem tive tempo de refletir. Avistei um rapaz de bicicleta, não conseguia visualizar bem, mas sabia que era alguém numa bicicleta e que certamente poderia  me ajudar.

Chamei-o e ele, por um momento, me fitou, talvez pensando no que eu queria. Insisti, explicando que não conseguia arrumar a correia.

Acho que ele imediatamente compreendeu o meu desespero, pois prontamente aproximou-se e já deu dicas, além de começar a destravar a correia.

Eu posicionara a bicicleta com as rodas para cima, o que ele refutou como um método equivocado. O correto seria deixá-la na posição normal, apenas levantando-a um pouco e mexendo na roda de trás.

Ele cuidadosamente acionou as engrenagens de modo a  se juntarem à correia, ajustando-as completamente, primeiramente a parte que fica na roda traseira, em seguida, limitou-se a arrumar a coroa nos pedais.

Foi aos poucos, colocando-a no lugar e informando como deveria proceder, visto que havia uma distorção na roda de trás, que deveria ser consertada.

Não sabia como agradecer-lhe, inclusive pedi desculpas por ter-lhe interrompido a caminhada.

Para ele, não houve problemas. É o tipo de pessoa que faz questão de prestar auxílio com a maior disponibilidade, foi o que pude perceber. <p>Afastou-se ouvindo ainda os meus agradecimentos.

Seguiu o seu caminho e eu, o meu. Estava leve, aliviado, problema resolvido. Foi tão fácil pra ele. Tão difícil pra mim.

Fiquei então, pensando, que ainda há pessoas que fazem gentilezas, que ajudam a quem precisa, de modo despretensioso, apenas com o desejo de cumprir uma boa ação.

Provavelmente, nem tem esta consciência, mas lhes é próprio esta faculdade. Ele me salvou de uma situação difícil e levou consigo uma leveza de alma, que certamente deve ter sentido, pela ajuda que prestou. Realmente não tenho habilidades motoras, meu habitat é a escrita, e por isso, descrevo a sensibilidade da ajuda de outrem.

Ainda há tempo pra gentileza. Isso é muito bom. Alvissareiro.beach-1838331_960_720

As olimpíadas e as opiniões contraditórias

 

Há sete anos, “Chegou a nossa hora”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Copenhague, na Dinamarca, ao defender diante do Comitê Olímpico Internacional (COI) a candidatura do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016.

 

Muitas pessoas refutaram o discurso como absurdo e que o País não teria condições de arcar com um evento esportivo deste porte.

Talvez tivessem razão.

 

Durante sete anos, Dilma Roussef proporcionou condições para que o evento olímpico acontecesse no Brasil.

 

Muitos execraram a conduta da Presidente, achando que não era hora do País utilizar os seus recursos financeiros e humanos para este empreedimento.

Talvez tivessem razão.

 

Em 2016, as olimpíadas ocorreram no período transitório do temerário. Muitos ufânicos e patrióticos acreditaram que a Olimpíada foi um sucesso. Estes mesmos que foram contrários antes.

 

Talvez tenham razão (?)2010_bom-senso-600x450

Momentos e encontros

 

13692957_1067421813349636_2197970395581522697_oFonte da ilustração: Foto do amigo escritor, poeta e fotógrafo Wilson Rosa da Fonseca.

Há momentos em que a multidão restringe os movimentos, os passos, os suspiros e outros em que a solidão prevalece em espaços vazios, produzindo estranhamentos em nossos mundos.

Há momentos de abastança, festas eloquentes e climas de euforia. Outros de espanto, pobreza e medo.

Há momentos de certeza, outros desconfiança.

Há momentos de temperança e tolerância. Outros em guerra lutando por paz.

Há momentos de entusiasmo, criatividade e procuras, outros de trabalho e suor.

Há momentos de prazer, de excessos e devaneios, outros de reflexões e dúvidas.

Há momentos que se cruzam, que se interpõem e se unem, ou morrem ou se recriam.

Por isso pergunta-se: por que lá fora o frio, a dor, o medo, a angústia, o sofrimento?

Quem sabe aqui, também, hospitais a céu aberto, onde as feridas não curam e os algozes as aceleram.

A vida, às vezes, ecoa sonora e musical, lá fora. E aqui, retumba surdo o som que some e não se assume.

Quem sou eu nestes encontros? Quem somos nós? Um mundo sem fim? Uma verdade sem dor? Uma dor irreal?

Talvez bastem apenas os momentos, aqueles que se atravessem nas fronteiras, que se encontrem e se mirem. Mirar produz o elo, porque o outro é espelho de mim.

 

 

 

 

Contar estrelas

Dou alguns passos em direção à porta. Lá fora, é tão íntimo quanto aqui. O quintal sombrio, as estrelas pontilhando o negrume do céu sem lua. Percorro as vielas estreitas, esgueirando-me entre os canteiros mal desenhados, com a cabeça para o alto. Sinto uma dor no pescoço, mas insisto na manobra radical. É bom ficar assim, feito criança, olhando o céu, apenas o vazio infinito. Mas quero viver este momento evasivo, no qual a solidão se esvai como balão estourado. Fugidio, brigando com árvores, destelhando nuvens. Agora que a energia faltou, bom viver na escuridão quase total da noite. Não fossem as estrelas…Quisera não sair nunca mais do meu quintal, nem sentir o cheiro agridoce das velas. Ainda sonho. Sonho em ver estrelas mais de perto, com uma luneta colorida. Quisera ver a vida, na abundância das relações, e quem sabe, descrever o que me ficou às escuras, escondido na miopia de meus sentimentos ou percepções. Nunca tive a agudeza dos espertos, a argúcia dos empreendedores. O máximo que administro é o cultivo de minhas plantas. Fico a observar o dia e não o deixo passar sem fazer alguma coisa que me enleve, me dê alegria, me mostre algo mais do que meu coração descortina. Quero não apenas ver, mas experienciar as urdiduras, as tramas triviais do cotidiano. A mulher que desandou esquina abaixo, descendo a ladeira, o menino que regurgitou o sorvete na cara da mãe, a moça que pintou o piso com o lápis de sobrancelha, beijando o chão, o rapaz que deu duas piruetas no ar e transformou a moto numa sanfona, o homem que atravessou o sinal, destemperado, gritando aos brados, faminto de raiva, porque o companheiro de trajetória lhe cortou o caminho. Mas não quero tragédias, não. Que ninguém morra ou se machuque. Só que permitam gargalhadas. Que possa rir, sem chorar e que eles aprendam com os erros, se não o fizerem com a maturidade. Também quero ver bandeiras balançando, gente se enfileirando num mesmo objetivo, flores vicejando, pássaros voando em v, andorinhas visitando as tribos, adolescentes inventando amor em cio de primavera. Quero viver. Agora, porém, quero só voltar a cabeça pra cima, passear pelo meu jardim disforme, olhar para o céu escuro e contar estrelas. Com sorte, pego até uma verruga.images

Sorri

Quando passava rapidamente pelos sebos de revistas, livros e todas quinquilharias, gostava de procurar aqueles discos de vinil antigos principalmente os de coletâneas musicais. Às vezes, nem tão famosas, mas surpreendentes pela qualidade, embora ainda intactas nas caixas. Num desses passeios, percebia que as coisas mudavam de repente, que os vinis não me pareciam o antigo objeto de desejo, que havia outros motivos para os passeios, que nem sabia muito bem definir. Talvez o dia de sol em Porto Alegre, encontro com outros colecionadores e amantes de livros e discos, ou de quaisquer bugigangas que trouxessem um pouco de saudade. Nestes momentos, o mundo não parecia o mesmo, movia-se mais rápido. Com o tempo, percebia que, na verdade, procuramos muitas coisas e nossos desejos de felicidade estão bem escondidos, num lugar quase impenetrável e cada vez que os buscamos, o fosso se alarga e ela se espalha, como mercúrio do termômetro quebrado. Ágil, imperiosa. Às vezes, alegria transborda. Outras, a tristeza impera. Mas não há porque chorar, mas sim, sorrir. Juntar as gotas de mercúrio talvez seja impossível, mas há como sujar os dedos de pura substância. E o perigo está aí, em ser feliz. Porque a felicidade também dói, também causa ansiedade e medo. Mas então, devemos sorrir. Como naquela música que o Cauby Peixoto cantava magistralmente e também, mais tarde, num tom bem melancólico, a voz limpa e melodiosa de Djavan. Sorri ou Smile. “Sorri, quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios.” Há momentos assim, que os dias se arrastam, que não se tem a dinâmica do processo do tempo nem a perspicácia para se descobrir um caminho novo, para mudar a situação. Às vezes, nem sempre é algo muito palpável. É uma tristeza de se querer ser triste, não se sabe como, mas quem sabe uma necessidade intrínseca do ser humano em querer sofrer. Que me perdoem os médicos e os psicanalistas, mas acho que o homem em determinados momentos, gosta de sofrer. Por vezes, o sentimento extrapola uma dor imaterial, sugerida por uma canção doída, que nos remete a sofrimentos, que nem são nossos, mas que os tomamos, como a dor de nossas vidas. Sempre que ouço a música “Pedaço de mim”, que fala exclusivamente da saudade, pra mim, surge uma imagem clara da dor de um pai ou mãe que perdem o filho e essa imagem me dói intensamente, mesmo sabendo que é uma metáfora forte para a dor da saudade, do abandono, da morte do amor. “Oh, pedaço de mim, oh, metade arrancada de mim, leva o vulto teu, que a saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto, do filho que já morreu”. E se sofremos por motivos diversos, isso de forma real e absoluta, também encolhemos essa dor, com medicamentos alienantes. Mas que fazer? Segurar a dor? Segurar a ansiedade? Não. Sorri, como diz a música. “Sorri, quando tudo terminar, quando nada mais restar do teu sonho encantador”. E quem não sonha sempre, em qualquer etapa da vida? Quando crianças, em conseguir aquele game famoso, de última geração. (Na verdade, nem todas as crianças tem estes sonhos, algumas no máximo, o de brincar nas ruas enlameadas em que vivem). E quando adolescentes, que o sonho maior talvez seja apenas a afirmação como ser humano, integrante no grupo, fazer parte da galera? É possível. Aí vem o sofrimento, a dor , a angústia. E quando adultos? O amor imaginado, a segurança do carinho certo, do encontro pleno, ou quem sabe, da profissão desejada, do emprego, da vocação? Há tantos sonhos para os jovens. E para os adultos, de qualquer idade? A viagem sonhada? A saúde? O projeto há tanto adiado? O reconhecimento dos amigos? O acolhimento da família? Que fazer, quando nem tudo ocorre como sonhamos? Sorri. “Sorri, quando o sol perder a luz e sentires uma cruz, nos teus ombros cansados, doridos, sorri”. E quem sabe, assim, com o passar do tempo, com o deflagrar das ilusões, com a tendência de sermos celebridades por momentos exíguos e expor as nossas vidas ao público das redes sociais, vivermos esse sonho virtual. Então: “Sorri, vai mentindo a tua dor, e ao notar que tu sorris, todo mundo irá supor que és feliz”.

 images-1

Registros

fotos-historicas-6

Não sou de guardar muitas coisas. Um texto aqui, um chaveiro ali, uma fotografia lá. Há coisas que não se guarda, na verdade, se resguarda do extravio. Há outras que nos parecem uma espécie de registro, uma lembrança de um acontecimento importante em nossas vidas, uma informação do passado, uma memória. Guardo alguns recortes que nunca leio. Guardo fotografias que dificilmente olho. Guardo textos antigos que jamais analiso. Um coisa, tenho certeza, guardo sim e com prazer: cartões do dia dos pais ou relacionada a minha profissão dados por minha filha, afilhados e sobrinhos. Essas, de vez enquanto, espio agradecido. Observo as letrinhas desenhadas, o jeito despojado de oferecer carinho e mais do que tudo, a espontaneidade do momento. É muito bom. Outras, burocráticas, nem tanto. Em todo caso, há que se guardar. Guardar é esperar que algum dia, se utilize dessas pequenas relíquias para compor uma memória organizada, quem sabe? Uma coisa, tenho certeza, as lembranças de encontros, de apertos de mãos, de despedidas, de afagos, esses sim, são sempre bem registrados e a todo momento, vem na lembrança com a euforia que lhes é peculiar ou a saudade que os constitui. Lembranças boas ou más sempre estão conosco. É preciso burilá-las e deixar que venham ao lume as que nos transmitem paz. Coisas de bibliotecário.

A vida andava devagar

Como morava próximo à Praça Saraiva, meu pai às vezes tomava o bonde, que saia do abrigo, via Aquidaban, dobrava na linha nova e prosseguia pela Colombo. Morávamos em frente à Padaria União e lembro bem, meu pai cevava o mate, apanhava a garrafa de leite da soleira da porta, comprava o pão de quilo, tomava o café e saía para o trabalho. Recordo, certa vez em que voltava no Saraiva, com meu pai. Eu, apoiado no final do vagão, observando os trilhos que fugiam céleres ante meu olhar, escoandDSCF8688o histórias pelas alamedas que se perdiam, operários apressados, crianças no caminho da escola, donas de casas afoitas para abastecer a despensa. Lembro de uma tia que estocava a tulha com cereais, pois temia uma presumível guerra mundial. Além disso, tinha por hábito, enfeitar a cozinha com artesanato em crochê. O forro do botijão que compunha o fogão Wallig, a capa do filtro de cerâmica, o guardanapo sobre a Steigleder e a toalha da mesa. Nem a tulha escapava do adorno. Ah, da cozinha para a copa, havia uma passadeira, adivinhem, de crochê. Fiquei ali, observando os trilhos que se afastavam, compondo histórias, quando meu pai perguntou por minha irmã. Nem percebera que ela ficara na parada onde tomamos o bonde. Meu pai desceu rapidamente. Naquele momento, percebi-o como um herói dos gibis, empenhado na defesa da harmonia e da paz. Não demorou muito e ele apareceu na janela, esbaforido, com minha irmã nos braços, pedindo que abrissem a porta. O cobrador acenou para o motorneiro, que em seguida freou, acionando a campainha, para que meu pai permanecesse no meio fio. Quando o vi, ali dentro, a paz se instaurou. Então, voltei pra minha janela, lembrando da tia esquisita, que ornamentava a casa, quase desfigurando-a de seu aspecto original. Havia outra tia, que varava as madrugadas organizando a cristaleira. E em minha mente, a presença de um tio, de feições aristocráticas, rosto afilado, bigode preto e fala macia, que discutia política. Mas estes, são temas para outras crônicas. A vida, naquela época, andava devagar, como os bondes.