A barca e a biblioteca: um romance como livros foram sitiados também em tempos de recessão

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É a trajetória de um bibliotecário que aos poucos vai se inteirando da verdadeira história de seu pai e o quanto ela ainda o influencia nos dias atuais, forçado a recorrer ao passado e reconhecer nele um caminho novo, de liberdade e orgulho, que não identificava anteriormente. Uma história que vai modificar e completar a sua. Com o conhecimento destas vivências, cresce como ser humano.

Tudo começa nos anos sessenta, cuja curiosidade infantil o impulsiona a conhecer determinados documentos que parecem comprometer o pai, e que tanto o angustiavam pelo forte conteúdo político que continham.

Ao mesmo tempo, levava a vida de menino, confrontando a fantasia de aventurar-se na barca à beira do cais, sempre impedido pela mão forte do pai, enquanto, que através de outros caminhos, imergia no mundo sagrado da biblioteca, batizado que fôra nas letras, podendo singrar os mares tal como os navegadores antigos, sem que houvesse qualquer intervenção. Aqui ocorre a metáfora da barca que não ousara entrar, mas que se materializava no ambiente dos livros.

Em meio a tudo isso, há a luta política do pai, como voluntário no movimento da legalidade, quando Brizola instalava a rádio nos porões do Palácio. Em decorrência destas atitudes, fôra perseguido e torturado, a partir da derrocada da liberdade pelo advento da ditadura.

Na fase adulta, envolvido com os documentos confidenciais do pai, misturam-se personagens que gravitam em torno deste mistério, na trama que ocorre no cenário de uma biblioteca, chegando ao ápice, a partir de um crime.

Nesta atmosfera misturam-se sentimentos muito fortes, mas bem distantes dos relacionamentos idealizados de sua infância.

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Contratempos num passeio de bicicleta na praia

Não sou muito bom em tarefas manuais. Não tenho as habilidades básicas, nem para trocar o cartucho na impressora, mexer com parafusos ou arrumar a correia da bicicleta. Não é meu jeito, que fazer. Tenho outras habilidades, graças a Deus. Mas devido a esta falta de jeito, muitas vezes, passo por perrengues nada agradáveis.

Outro dia, ao entardecer, estava passeando de bicicleta pela praia, um fim de tarde lindo, o sol se pondo e as águas translúcidas pela pouca luz que restava. Dava gosto de ver. Fui indo, com o vento a favor, em direção à barra e nem me dei conta que a noite chegava rapidamente.

Decidi voltar e de repente, a correia da bicicleta travou. Na verdade, deslocou-se das engrenagens da coroa da pedivela (rodas denteadas, pesquisei) e a catraca da roda traseira.

Então, virei a bicicleta e tentei recolocá-la, sem nenhum sucesso. Engraxei as mãos, tingi as unhas e os dedos, mas tudo o que fazia, aumentava mais o enredo que se formava. Quanto mais tentava resgatar o emaranhado, mais se embaraçava a correia e a coisa ficava pior.

Não tinha jeito. Enredava mais e mais. Por vezes, a coisa quase se acertava.

Olhava detidamente tentando descobrir o imenso quebra-cabeças que se formava.

Puxei com cuidado uma parte da corrente que me parecia mais solta, mas para minha surpresa, ela se engatava de um lado e se soltava do outro, formando umas argolas difíceis de desmanchar.

<p>Sentei-me no chão, emoldurando o calção de areia, molhado que estava da praia, pois havia tomado um banho rápido antes.<br />

<p>Tentei desta vez, fazer uma limpeza, sem ter qualquer instrumento adequado, a não ser minhas próprias mãos. Encontrei uma espécie de taquara, acho que era isso, talvez de pandorga ( ainda utilizam taquara nas pandorgas, como no meu tempo?) e investi decidido na limpeza da areia molhada que se acumulava entre os dentes. Quem sabe assim, ficava mais fácil de colocar a engrenagem em ordem. Pura ilusão, cada vez que eu tentava engatar uma parte, a outra se destrambelhava toda, tornando tudo um caos.<br />

Comecei a pensar que deveria seguir em frente, a pé.

Levantei-me, cheio de areia, os chinelos transbordando lama, por ter passado no riacho, produzindo rápido a mistura que os deixava praticamente fora de uso.

Mas não havia alternativa. A noite se aproximava, as pessoas rareavam cada vez mais e eu precisava tomar uma atitude, ou seja, a única viável para aquele momento insólito: voltar para casa com a bicicleta a cabresto.

Fiquei tanto tempo envolvido com aquela tarefa sem resultado, que a noite chegou rapidamente e com ela, o vento que se intensificava, me empurrando para a direção oposta. Tinha a impressão que estava num deserto, com ondas de areia que se formavam ante meus pés como nuvens brancas, que se misturavam céleres com as pequenas lagoas que atravessava, voando na direção das dunas. Assim é o Cassino, quando o tempo muda.

Ao longe, observava na luz tênue, os cata-ventos que se espraiavam na névoa e uma nuvem escura se afunilava no céu, ameaçadora, anunciando uma tempestade que talvez surgisse a qualquer momento.

Sentia o vento fustigar meu tórax sem camisa e um frio inesperado me atingia, nem sei se pela influência da natureza ou pela ansiedade que se intensificava.

Não era nada assustador, daqui a pouco estaria em casa, talvez 40 minutos ou 1 hora de caminhada, nada demais.

Mas o cansaço e a luta embrenhada contra o vento produziam a atmosfera necessária para o medo.

Entretanto, nem tudo parecia perdido, apesar da minha inabilidade em consertar coisas ou fazer trabalhos manuais, havia a possibilidade de ajuda de alguém.

Quem sabe alguém que viesse num dos carros que vez que outra passavam por mim, quem sabe um deles pararia e me ajudasse. Ou mesmo o caminhão da limpeza, que imaginava que passasse àquela hora na praia.

Por outro lado, conjecturava que eles nem pensariam em parar, afinal, a noite se aproximava, o tempo estava ruim, o vento forte e eu poderia ser um marginal que oferecesse algum perigo.

Por certo, não parariam.

Ninguém me ajudaria àquele hora.

Mas meus pensamentos se dissiparam como gelo na água. Foi de repente que aconteceu e nem tive tempo de refletir. Avistei um rapaz de bicicleta, não conseguia visualizar bem, mas sabia que era alguém numa bicicleta e que certamente poderia  me ajudar.

Chamei-o e ele, por um momento, me fitou, talvez pensando no que eu queria. Insisti, explicando que não conseguia arrumar a correia.

Acho que ele imediatamente compreendeu o meu desespero, pois prontamente aproximou-se e já deu dicas, além de começar a destravar a correia.

Eu posicionara a bicicleta com as rodas para cima, o que ele refutou como um método equivocado. O correto seria deixá-la na posição normal, apenas levantando-a um pouco e mexendo na roda de trás.

Ele cuidadosamente acionou as engrenagens de modo a  se juntarem à correia, ajustando-as completamente, primeiramente a parte que fica na roda traseira, em seguida, limitou-se a arrumar a coroa nos pedais.

Foi aos poucos, colocando-a no lugar e informando como deveria proceder, visto que havia uma distorção na roda de trás, que deveria ser consertada.

Não sabia como agradecer-lhe, inclusive pedi desculpas por ter-lhe interrompido a caminhada.

Para ele, não houve problemas. É o tipo de pessoa que faz questão de prestar auxílio com a maior disponibilidade, foi o que pude perceber. <p>Afastou-se ouvindo ainda os meus agradecimentos.

Seguiu o seu caminho e eu, o meu. Estava leve, aliviado, problema resolvido. Foi tão fácil pra ele. Tão difícil pra mim.

Fiquei então, pensando, que ainda há pessoas que fazem gentilezas, que ajudam a quem precisa, de modo despretensioso, apenas com o desejo de cumprir uma boa ação.

Provavelmente, nem tem esta consciência, mas lhes é próprio esta faculdade. Ele me salvou de uma situação difícil e levou consigo uma leveza de alma, que certamente deve ter sentido, pela ajuda que prestou. Realmente não tenho habilidades motoras, meu habitat é a escrita, e por isso, descrevo a sensibilidade da ajuda de outrem.

Ainda há tempo pra gentileza. Isso é muito bom. Alvissareiro.beach-1838331_960_720

Dessolidões

Meu vizinho sofria de uma doença estranha. Foi ao médico, ao curandeiro, ao pastor, leu todos os livros de autoajuda, e nada. A tal da moléstia não o deixava em paz. Era um vazio no peito, uma fome de não sei o quê, um vagar assustado pela casa, um temor de qualquer coisa que não se parecesse com movimento e folia. Não tinha o que se queixar, sua vida era perfeita, muito amado nas redes sociais, vivia em noitadas, antecipada aos happy-hours cercados por amigos. Mas o que acontecia que o aporrinhava tanto? Não passava um minuto sozinho, não tinha nada que o aborrecesse de verdade, até no trânsito costumava se divertir: carro potente, som atordoante, quase um trio elétrico.

A vida se lambuzava de prazeres e o mundo nada mais era do que o seu portal de acesso. Estava sempre entre os melhores, aparecia com as mulheres mais lindas, era conceituado como um grande executivo, um homem de negócios e de valor. Até que apareceu aquela dor no peito, aquela quase falta de ar, aquela opacidade no olhar que às vezes se revelava no espelho, aquele murmúrio no meio da noite, com um ah abafado de quem sofre. Mas ele não sofria, era feliz e bem sucedido. Que diabo de doença o acometia?

Até que um dia, sem querer uniu-se a uma turma muito diferente da sua. Um pessoal que costumava flertar com leituras, com estética, com natureza, com vida ao ar livre, com família, com pequenos prazeres jamais considerados por ele. No meio do papo, à beira da praia, já anoitecendo, começou a se questionar. Perguntou-se o que fazia no meio daquele grupo. Entretanto, deixou-se ficar, já que parecia agradável, uma sensação ímpar, que nunca tinha experimentado. Então, começou a falar de si, de suas vitórias na escalada social, nos grandes negócios, as conquistas as mulheres mais lindas e invejáveis do país. Não houve muito interesse. Em seguida, começou a se queixar. Não entendia o sofrimento do qual era passível. Afinal, a casa era sempre cheia de gente, onde ia, se reunia com as pessoas mais glamorosas, e mesmo assim, sentia este vazio, esta dor no peito, este desconforto que o atormentava. Até que um deles, um barbudo que parecia um guru oriental concluiu que ele sofria de dessolidão.

O prato estava cheio demais, de interesses perdulários, de objetivos materiais e muita, muita aparência. Não gostou do que ouviu, mas à noite refletiu.

É, meu vizinho sofria de dessolidão. Mata mais do que a solidão bem vivida.lonely-man-688200_960_720

As olimpíadas e as opiniões contraditórias

 

Há sete anos, “Chegou a nossa hora”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Copenhague, na Dinamarca, ao defender diante do Comitê Olímpico Internacional (COI) a candidatura do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016.

 

Muitas pessoas refutaram o discurso como absurdo e que o País não teria condições de arcar com um evento esportivo deste porte.

Talvez tivessem razão.

 

Durante sete anos, Dilma Roussef proporcionou condições para que o evento olímpico acontecesse no Brasil.

 

Muitos execraram a conduta da Presidente, achando que não era hora do País utilizar os seus recursos financeiros e humanos para este empreedimento.

Talvez tivessem razão.

 

Em 2016, as olimpíadas ocorreram no período transitório do temerário. Muitos ufânicos e patrióticos acreditaram que a Olimpíada foi um sucesso. Estes mesmos que foram contrários antes.

 

Talvez tenham razão (?)2010_bom-senso-600x450

Momentos e encontros

 

13692957_1067421813349636_2197970395581522697_oFonte da ilustração: Foto do amigo escritor, poeta e fotógrafo Wilson Rosa da Fonseca.

Há momentos em que a multidão restringe os movimentos, os passos, os suspiros e outros em que a solidão prevalece em espaços vazios, produzindo estranhamentos em nossos mundos.

Há momentos de abastança, festas eloquentes e climas de euforia. Outros de espanto, pobreza e medo.

Há momentos de certeza, outros desconfiança.

Há momentos de temperança e tolerância. Outros em guerra lutando por paz.

Há momentos de entusiasmo, criatividade e procuras, outros de trabalho e suor.

Há momentos de prazer, de excessos e devaneios, outros de reflexões e dúvidas.

Há momentos que se cruzam, que se interpõem e se unem, ou morrem ou se recriam.

Por isso pergunta-se: por que lá fora o frio, a dor, o medo, a angústia, o sofrimento?

Quem sabe aqui, também, hospitais a céu aberto, onde as feridas não curam e os algozes as aceleram.

A vida, às vezes, ecoa sonora e musical, lá fora. E aqui, retumba surdo o som que some e não se assume.

Quem sou eu nestes encontros? Quem somos nós? Um mundo sem fim? Uma verdade sem dor? Uma dor irreal?

Talvez bastem apenas os momentos, aqueles que se atravessem nas fronteiras, que se encontrem e se mirem. Mirar produz o elo, porque o outro é espelho de mim.

 

 

 

 

A avalanche de sons

 

Hugo acordou com um certo zunido nos ouvidos. Na verdade, nem sabia se o ruído vinha de fora ou era um som interno, que não conseguia identificar.

Aos poucos, diferentes sons eram ouvidos e tinha a impressão que várias pessoas falavam ao mesmo tempo, bem perto de si, além de outros barulhos.

As paredes estalavam, os cabos de luz produziam pequenas alternâncias de ruídos, como movendo-se levemente e até mesmo os plugues das tomadas emitiam sonoridades estranhas. Parece até que borboletas batiam asas próximas ao seu rosto e um cri-cri de grilos se alternava com zumbidos de mosquitos.

Estaria sonhando, pensou.

Levantou-se rápido e foi até a janela. Viu pequenos agrupamentos de pessoas na calçada e um burburinho intenso, como se estivessem à espera de algum acontecimento grandioso. Puxou os óculos da ponta do nariz e tentou enxergar do outro lado da rua.

As sacadas do prédio da frente estavam repletas de homens, mulheres e crianças, todos envolvidos numa balbúrdia animada. Até balões coloridos as crianças soltavam e por vezes, estouravam aumentando ainda mais o tumulto.

Hugo decidiu afastar-se da janela e tomar um banho. Faria as atividades habituais, como sempre.

Logo em seguida, iria ao Café Belém para o desjejum e jogar conversa fora com os amigos.

Não demorou muito, estava na rua, dirigindo-se ao Café, ouvindo cada vez mais forte o ruído que aumentava a cada pequena aglomeração que se formava na calçada. <br />

Quem os visse de cima, observaria uma massa escura e uniforme que fazia e se desfazia em blocos, dividindo-se em alaridos desorganizados. Por sorte, a turba agitada e frenética vinha de outra esquina e ainda não tinha chegado às proximidades do Café com toda a sua extensão.

Finalmente, entrou no Café, no qual percebia poucas mesas vazias, na verdade, apenas duas, uma bem perto da tv gigante que ficava sempre ligada na Globo, o que o irritava profundamente e outra próxima à janela, que dava para a rua do lado.

Cumprimentou a moça da caixa, que sorriu, mas de modo estranho, pois não ouviu som algum. Parece que todos estavam calados e se falavam, era como um filme mudo.

No bar havia silêncio absoluto. Por um lado, Hugo deu graças a Deus, afinal, era tanto ruído, tanta loucura que o ideal era passar o dia no Café Belém.

O garçom, velho conhecido por trabalhar há bastante tempo na casa, aproximou-se e ele pediu o de sempre: café preto, um pão com manteiga e um pratinho com frutas. Podia ser mamão e um kiwi cortado em rodelas.

O garçom sorriu, anotou o pedido e afastou-se sem dizer nada.

Que estaria havendo agora? Todos em silêncio.

 

Voltou o pescoço para trás para ver se a tv estava ligada. Apenas uma imagem imóvel de um comercial de xampu, sem qualquer som.

Hugo começou a sentir um certo frio, talvez até temor pelo que estava acontecendo. Seria só com ele? Será que os demais se comunicavam e ouviam muito bem o que diziam? Será que estava enlouquecendo? Ele, um homem com tantas ideias muito bem articuladas sobre vários assuntos, um literato, um homem de cultura, engajado política e socialmente na sociedade e agora… o que estava ocorrendo no mundo, meu Deus?

Um ruga de preocupação marcava a testa de Hugo e seus olhos se voltavam para todos os lados, observando as paredes, o balcão de granito com seus vários bancos à espera de clientes, as mesas ao centro quase que completamente preenchidas, a não ser aquela próxima à tv. Hoje não haveria problema, pensou, afinal, a tv estava muda e não incomodaria ninguém. Poderia até sentar ali, na frente daquela imagem de mulher alisando os cabelos, patética, olhando o nada, a boca entreaberta querendo dizer algo que não se articulava.

Percebeu o garçom aproximar-se com o café e animou-se um pouco.

Agora poderia falar-lhe, perguntar por exemplo, sobre o futebol, ele que era um gremista fanático. Até tentou fazê-lo, mas o outro afastou-se em seguida, deixando na mesa o pedido, apenas exercendo um sorriso formal.

Hugo ainda perguntou, assistiu o jogo ontem?, mas o garçom voltou-se, apertou o seu pulso de modo consensual para dizer alguma coisa ou ser apenas gentil e afastou-se novamente em silêncio.

 

Hugo reclamou, que merda, que ninguém fala nada! Mas decidiu tomar o café e dedicar-se à leitura do jornal, que como sempre, o garçom, já na sua chegada, deixara sobre a mesa da qual ele se aproximava.

Hugo leu a notícia sobre Temer que criticava o Mercosul, o qual deveria ser repensado; fez um cara de repulsa e dobrou a página.

Antes de ler a crônica do Juremir Machado, deu uma passada de olhos pelas pessoas que estavam no local.

<p>Numa das mesas havia dois homens conversando animados, um deles apontava para um tablet, mostrando algum post engraçado ou vídeo, não conseguia ver. Entretanto, nada se ouvia, como os demais, apenas aquele fechar e abrir de bocas, gestos espontâneos e empurrões em cadeiras em pleno silêncio. Só faltava ser em preto e branco para completar os quadros sequenciais, pensou Hugo. <br />

Olhou para os demais, um casal e duas crianças noutra mesa. A menina que devia ser menor que o menino, chorava fazendo uma careta terrível, pedindo alguma coisa que os pais negavam. O homem parecia nervoso, mordia os lábios e a mulher falava, estabanada, movendo os braços e mãos como se combatesse os próprios gestos para evitar bater nas crianças. O menino estava entretido no celular e este sim, estava em silêncio, embora o ruído eletrônico do bichinho em suas mãos devia ser insuportável.

Numa outra mesa, havia um homem sozinho. Vestia terno e trazia consigo uma mochila que parecia pesada, pois escorregava a todo momento pela cadeira, caindo no chão. Devia ser muito desastrado, pois cada vez que retirava alguma coisa da mochila, como o celular ou a carteira do dinheiro, esta retomava o mesmo processo de cair. Tudo em absoluto silêncio.

Havia outros, muito mais, mas Hugo desistira deles e decidira tomar o café.

Estava delicioso, aquele pãozinho com manteiga derretendo sobre a massa enfarinhada lhe aguçava a saliva e o prazer.

Pediria outro certamente e mesmo que viesse em silêncio, mas assim daquele mesmo sabor, estava ótimo. Depois provaria as frutas em fatias perfeitas, como pedira. O pessoal do Café Belém conhecia o seu paladar.

Foi o que fez. Deixou o jornal de lado e partiu para o ataque naquele desjejum sóbrio e prazeroso.

Depois ficou observando o garçom, as atendentes que traziam as refeições, o pessoal da cozinha.

Todos pareciam muito corteses uns com os outros. A moça da caixa também mostrava-se gentil com os que entravam ou saíam do estabelecimento.

Hugo procurou entre os seus pertences, uma caneta e um pedaço de papel. Elaborou um pequeno comentário que faria na Sociedade Literária, na qual participaria mais tarde.

<p>Estava bem disposto, saudável e com muito ânimo para pôr em prática os seus projetos, por isso comporia um pequeno esquema do trabalho. <p>Sabia por onde começar e o faria por emitir posicionamento político em seus textos, embora soubesse de antemão que o grupo desaprovaria qualquer questão que não expressasse exclusivamente o sabor da brisa e o aroma das almas. Mas isso era irrelevante naquele momento. <br />

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Depois de guardar o papel e a caneta no bolso, levantou-se, deu um bom dia ao pessoal do balcão, que retribuiu com um aceno e alguns sorrisos.

Dirigiu-se à caixa, antes passando pelo garçom que se deslocava pelo corredor com um bule numa bandeja e despediu-se apenas com um aceno, porque sabia que receberia o mesmo.

Na caixa, passou o cartão na leitora, cumprimentou a moça com um sorriso e dirigiu-se à porta envidraçada.

Percebeu que nem o salto de seus sapatos faziam qualquer ruído.

Por um momento, observou pela vidraça, centena de pessoas que transitavam de um lado para o outro, como se várias procissões andassem em sentido contrário.

Ainda olhou para trás para ver se as pessoas em suas mesas continuavam conversando e viu que o processo era o mesmo: muita conversa, muito sorriso, muitos gestos e muito silêncio.

Então, segurou firme a maçaneta e empurrou a porta com cuidado. Nisso, uma avalanche de sons, gritos, buzinas, estrondos de rojões, gritarias, ambulâncias, polícia e bombeiros, tudo misturado expandia em seus ouvidos, deixando-o zonzo e assustado.

Por isso, puxou-a com força, lacrando-a para sempre e correu para a sua mesa.

Ali, restava um silêncio absoluto.

A palestra

Entrei inopinadamente na sala, pernas bambas, suor na testa, nas mãos, lábios trêmulos, vexado. Elaborei desculpas. Desviei das centenas de olhares que investigavam curiosos. Fazia calor e eu vestido da cabeça aos pés com agasalhos pesados, maleta na mão, celular no bolso, relógio descolando da pulseira. Investi até uma cadeira, abri a pasta, espalhei papéis, fiz barulhos estrondosos no silêncio absoluto.

32709-d-optical-effect-shape-hallucination-optical-300x533O palestrante pigarreou, deu alguns passos, me olhou de soslaio, retomou o tema, irritado. Juntei o que pude, caído do chão, esparsos documentos, entre fotografias, pregos, alfinetes, alicate de unhas, chaveiros. A cadeira rangeu, eu me abaixei devagarinho, mas empurrei os pés de metal, riscando o piso. Foi o suficiente para cessar a palestra.

Ele me olhou novamente, e quase em súplica, exigiu silêncio, apenas com os olhos. Todos os demais viraram os pescoços, narizes, ventas e resmungos em minha direção. Retorci-me levantando a pilha de objetos do chão, fazendo movimentos de malabarista, temendo aumentar o ruído. Ajeitei-me na cadeira. Aquietei-me. Só por fora. Coração alertava, espaldando-se dentro do peito, batucando que nem índio em dia de festa. Estava pálido, acho que até os lábios embranqueceram. Era desafio grande ficar ali, atrasado, danoso, inoportuno.

O mestre recomeçou.  Tentei prestar a atenção, mas os pensamentos se confundiam e se misturavam na minha mente, fazendo um entrelaçado de imagens que eu não conseguia sintonizar. Respirei fundo, imaginando o ar inspirado invadir o cérebro e limpar de vez as teias de aranha, há tempo engendradas, ocupando espaços indevidos. Expirei com força para fora, expelindo o negativo, numa nuvem preta, maciça, intensa. Foi um som tão forte e inesperado, até por mim, que o homem parou novamente, desta vez assustado, talvez pensando que eu estava passando mal. Pedi desculpas, expliquei que estava tentando relaxar, me concentrar para entender bem a palestra, mas o som saiu assim forte, assim intenso, assim inesperado que até eu me arrepiei.  Parecia espírito do além.

O palestrante era baixinho, agora reparava bem. Foi bom falar, esvaziei um pouco a ansiedade. Tanto que pude observar as coisas, até o jeito dele. Nariz adunco, boca grande, lábios finos e olhos pequenos, salientes, caídos das órbitas sob uns óculos leves, na ponta do nariz. O cabelo, entradas enormes, clareiras imensas na floresta rala de pelos alinhados para trás. A voz era forte, gutural, enérgica. Falava em… em que mesmo? Ah, inserção de valores. Como assim? Natureza morta? Seria sobre arte, pintura, ecologia? Nada disso, o assunto versava sobre política, mas tudo é política. Até o ar que respiramos está atracado à política. A água, cada vez mais rara. E o tratado de Quioto? Faltava-me ar, naquele momento. Pensar nisso me dava aflição. Até alergia. Pior, comecei a fungar. Fungar baixinho, pigarreando de leve, tentando conter o espirro. Parecia cacoete, mas sempre que alguma coisa me incomodava, vinha aquela cosquinha irritante na garganta, aquele arder nos olhos, uma tosse iniciante decidida a permanecer ou um monte de espirros magistrais, exagerados, exorbitantes. Respirei fundo novamente, mas desta vez, sem nenhuma técnica para não acordar a platéia. Mas alguma coisa me irritava, porque o nariz coçava, a tossesinha  surgia no fundo da garganta, aparecendo desanimada no início. Eu, evitando o pior. Se me desse conta o que me fazia mal, cessava definitivamente a alergia. Mas eu ainda não sabia o que era.

Olhei para alguns participantes que estavam mais próximos, eu na cadeira, no corredor do meio. Ao me lado, fileira de dois de um lado, e no outro, outras duas alas totalmente preenchidas. Um rapaz negro do meu lado, uma tarja na testa, segurando os cabelos. Olhar compenetrado, jeito estudado de  intelectual, postura adequada, pernas esticadas, mãos nas coxas, como esperando a apoteose final, o confronto das ideias, o debate, a resposta definitiva. Ao seu lado, uma moça, cara de estudante, óculos pesados sobre o nariz arrebitado, boca entreaberta mastigando vez que outra um lápis com o qual devia fazer anotações. Cabelos castanhos, luzes, soltos sobre os ombros, mãos finas e pequenas, unhas pintadas de rosa. No chão uma mochila gorda, cheia de penduricalhos, inclusive um chaveiro com um ursinho na ponta.

Parei de examinar a platéia, porque ouvi um hã hã de censura, do senhor que estava ao meu lado, sentindo-se incomodado pela minha cabeça virada em sua direção, nariz quase colado no dele, o qual nem tinha percebido. Tinha um bigodão, desses de contornar lábios, quase se juntar na testa, olhar aguçado, perspicaz, interessado. No colo, um laptop, conectado à Internet. O reflexo não me deixava ver, mas eu jurava que era um chat em que participava, dissimulado, aparentemente anotando informações. Então resolvi perguntar: –quem é ele? – apontei para o palestrante.

O homem parecia ter sido atingido por um bombardeio no Líbano. Sacudiu o bigode, mexendo a boca, aflito. Olhou-me com censura. Foi falar alguma coisa. Mas espirrei. Espirrei uma, duas vezes, três, inúmeras vezes e um muco insistente corria-me do nariz à boca, misturando-se ao queixo e eu passando as costas da mão, desolado.

O homem interrompeu a palestra mais uma vez. Ia pedir para eu afastar-me, tentar melhorar lá fora, talvez depois voltar, mas não lhe dei o prazer de dizer-me tudo isso.

Levantei-me, fiz um gesto explicando a alergia, um aceno qualquer, nem precisava e ia afastar-me, empurrando a cadeira devagar. Nisso, o bigodudo afirmou: – é um candidato. Está fazendo  campanha. Nós somos seus correligionários, entende?

Ele foi generoso e paciente. Talvez quisesse a minha aprovação. Mas agora, eu tinha entendido o motivo da minha alergia. Puxei a ponta da camisa e assoei o nariz, com náusea. E me fui.

Contar estrelas

Dou alguns passos em direção à porta. Lá fora, é tão íntimo quanto aqui. O quintal sombrio, as estrelas pontilhando o negrume do céu sem lua. Percorro as vielas estreitas, esgueirando-me entre os canteiros mal desenhados, com a cabeça para o alto. Sinto uma dor no pescoço, mas insisto na manobra radical. É bom ficar assim, feito criança, olhando o céu, apenas o vazio infinito. Mas quero viver este momento evasivo, no qual a solidão se esvai como balão estourado. Fugidio, brigando com árvores, destelhando nuvens. Agora que a energia faltou, bom viver na escuridão quase total da noite. Não fossem as estrelas…Quisera não sair nunca mais do meu quintal, nem sentir o cheiro agridoce das velas. Ainda sonho. Sonho em ver estrelas mais de perto, com uma luneta colorida. Quisera ver a vida, na abundância das relações, e quem sabe, descrever o que me ficou às escuras, escondido na miopia de meus sentimentos ou percepções. Nunca tive a agudeza dos espertos, a argúcia dos empreendedores. O máximo que administro é o cultivo de minhas plantas. Fico a observar o dia e não o deixo passar sem fazer alguma coisa que me enleve, me dê alegria, me mostre algo mais do que meu coração descortina. Quero não apenas ver, mas experienciar as urdiduras, as tramas triviais do cotidiano. A mulher que desandou esquina abaixo, descendo a ladeira, o menino que regurgitou o sorvete na cara da mãe, a moça que pintou o piso com o lápis de sobrancelha, beijando o chão, o rapaz que deu duas piruetas no ar e transformou a moto numa sanfona, o homem que atravessou o sinal, destemperado, gritando aos brados, faminto de raiva, porque o companheiro de trajetória lhe cortou o caminho. Mas não quero tragédias, não. Que ninguém morra ou se machuque. Só que permitam gargalhadas. Que possa rir, sem chorar e que eles aprendam com os erros, se não o fizerem com a maturidade. Também quero ver bandeiras balançando, gente se enfileirando num mesmo objetivo, flores vicejando, pássaros voando em v, andorinhas visitando as tribos, adolescentes inventando amor em cio de primavera. Quero viver. Agora, porém, quero só voltar a cabeça pra cima, passear pelo meu jardim disforme, olhar para o céu escuro e contar estrelas. Com sorte, pego até uma verruga.images