A vida andava devagar

Como morava próximo à Praça Saraiva, meu pai às vezes tomava o bonde, que saia do abrigo, via Aquidaban, dobrava na linha nova e prosseguia pela Colombo. Morávamos em frente à Padaria União e lembro bem, meu pai cevava o mate, apanhava a garrafa de leite da soleira da porta, comprava o pão de quilo, tomava o café e saía para o trabalho. Recordo, certa vez em que voltava no Saraiva, com meu pai. Eu, apoiado no final do vagão, observando os trilhos que fugiam céleres ante meu olhar, escoandDSCF8688o histórias pelas alamedas que se perdiam, operários apressados, crianças no caminho da escola, donas de casas afoitas para abastecer a despensa. Lembro de uma tia que estocava a tulha com cereais, pois temia uma presumível guerra mundial. Além disso, tinha por hábito, enfeitar a cozinha com artesanato em crochê. O forro do botijão que compunha o fogão Wallig, a capa do filtro de cerâmica, o guardanapo sobre a Steigleder e a toalha da mesa. Nem a tulha escapava do adorno. Ah, da cozinha para a copa, havia uma passadeira, adivinhem, de crochê. Fiquei ali, observando os trilhos que se afastavam, compondo histórias, quando meu pai perguntou por minha irmã. Nem percebera que ela ficara na parada onde tomamos o bonde. Meu pai desceu rapidamente. Naquele momento, percebi-o como um herói dos gibis, empenhado na defesa da harmonia e da paz. Não demorou muito e ele apareceu na janela, esbaforido, com minha irmã nos braços, pedindo que abrissem a porta. O cobrador acenou para o motorneiro, que em seguida freou, acionando a campainha, para que meu pai permanecesse no meio fio. Quando o vi, ali dentro, a paz se instaurou. Então, voltei pra minha janela, lembrando da tia esquisita, que ornamentava a casa, quase desfigurando-a de seu aspecto original. Havia outra tia, que varava as madrugadas organizando a cristaleira. E em minha mente, a presença de um tio, de feições aristocráticas, rosto afilado, bigode preto e fala macia, que discutia política. Mas estes, são temas para outras crônicas. A vida, naquela época, andava devagar, como os bondes.

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Viver a história

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Pensar num livro que povoou a minha infância me faz reviver sensações intensas, talvez saudade do período das descobertas, de aguçar a curiosidade em torno de qualquer tema. E, no caso, um tema de história, uma história romanceada, como se fazia na época. Trata-se do livro “Tiradentes e o aleijadinho: as duas sombras de Ouro Preto”, de Sérgio D. T. Macedo, um autor que escrevia para a juventude. Atualmente, pouco se sabe deste autor, embora nos sebos virtuais e em livrarias ainda existam algumas obras disponíveis. De todo modo, aquele mundo criativo, no qual passávamos a amar os heróis e entender a narrativa histórica como uma ocorrência de acontecimentos extraordinários, talvez nos tenha legado o desejo de perscrutar a sociedade com olhos mais afoitos, mais incisivos, mais instigantes. Não aqueles olhos de criança, cheios de expectativas e curiosidade, mas os de quem busca uma forma de encontrar se não heróis, pelo menos, cidadãos de caráter. Eram tempos de ilusões, de buscas, de alegria. Tempos em que mergulhávamos na leitura com a ansiedade de quem hoje navega na internet. Mas havia muito mais do que a interatividade virtual da atualidade. O que contava era o relacionamento com o próximo, baseado nos bons hábitos. A aprendizagem se dava pela profusão de ideias que emanavam dos livros e das discussões em sala de aula. Não éramos santos, em absoluto, mas praticávamos com intrínsica sabedoria, o ato de viver. Nossa imaginação voava em saltos e se perdia em sonhos, tal como o parágrafo que encerra o livro e sugere quase num sussurro, ao nosso ouvido, a trajetória dos personagens, ali, tão próximos de nós. “Então, se a gente fechar os olhos um instante e deixar o pensamento recuar para muito longe, para bem distante no tempo perdido, verá muita coisa interessante acontecer… Verá que pela rua detrás da matriz de Antônio Dias, passa um escravo forte, carregando o Aleijadinho todo embuçado na sua capa escura ; verá que se acendem as luzes na casa de Marília e ao som da “cavatina” os pares rodopiam no salão imenso, enquanto as moças riem, felizes; verá, que na ponte dos Contos, o poeta Gonzaga parou um instante, declamou um verso, deixou escapar um suspiro e continuou a caminhar, imerso em profundas reflexões; verá Bárbara Heliodora, toda vestida de preto, rindo um riso manso, suave, delicado, enquanto vai desaparecendo na curva daquela ruazinha íngreme, tão íngreme e tão alta, que parece o caminho do céu…” Era assim que a gente aprendia história.