2013 Projects: 365 Days, 52 Weeks

Uma imagem linda que expressa alegria plena. Causa uma sensação de serenidade. Faz bem à alma.

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Many of you use WordPress.com as a daily or weekly outlet to develop your craft (as seen in our popular writing and photography challenges on The Daily Post), or as a platform to chronicle your own post-a-day and year-long projects. Some projects are ongoing from year to year, while others have defined start and end points. It all depends on your project’s focus and scope, and your interests and timeframe.

Before we say hello to 2014, let’s take a quick peek at some blogging projects you worked on in 2013.

365 days

365 Days of Bacon was born on January 1, 2013, as a sort of anti-New Year’s resolution; the blogger wanted to focus on her obsession with bacon and give it the love it deserves:

Blogging about bacon everyday, and making a lot of tasty bacon recipes? Now that was a New Year’s resolution I could…

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O que Saint-Exupéry, um amigo e as redes sociais tem a ver?

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Há muitas coisas que nos chamam a atenção, quando participamos de redes sociais como o facebook, o twitter, o G+, Instagram, entre outras. Por exemplo, há pessoas que conhecemos ou não e que compartilham assuntos de mesmo interesse, como no meu caso, a literatura, a política, filmes, músicas, ciências da informação, com ênfase em biblioteca, os livros enfim. Não sou muito dado a bate-papo online, nem participar de redes de orações, discussões  religiosas, jogos, nem muito menos expor coisas muito íntimas, como por exemplo, um beijo apaixonado em minha mulher (porque se já foi fotografado, de certo modo, feito alguma pose e postado na rede) então, já este beijo não é tão espontâneo assim, é meio dramatizado, não é mesmo? Claro, que ocorrem os flagrantes e isso é legal. Mas falo daqueles encontros arrumadinhos, tudo muito certinho e o beijo tascado de forma cinematográfica. Ah, isso é engraçado. Há coisas intimas também, como um jantar em família, uma curiosidade como eu fazer churrasco, no que não sou muito bom, na alegria em estar com a filha e a mulher num passeio ou numa viagem. Acho  saudável, claro respeitando os limites da soberba e da ostentação. Mas não estou aqui para julgar ninguém, muito menos para criticar os inúmeros integrantes das redes sociais, inclusive os meus amigos.

Por outro lado, sei que no dia a dia, quando topo com uma pessoa com dificuldades físicas, e às vezes, um certo atraso em demonstrar o que desejam expressar, fico um pouco impaciente. É um defeito meu, é claro, já que devia ser mais tolerante, principalmente porque todos, sem excessão, inclusive eu, somos cheios de dificuldades, ou psíquicas, ou em virtude da idade avançada, ou da pouca idade, ou dos comportamentos rígidos introjetados, das inseguranças, das inibições ou mesmo das arrogâncias, da auto-estima exacerbada, enfim, todos temos algum tipo de inquietude em relação aos valores dos outros. Ninguém é perfeito. De todo modo, está claro que não sou paciente, mas também não sou intolerante. Sou uma pessoa que espera, espera que a outra mostre a que chegou, e sem nenhuma superioridade interior, tentar me aproximar e ser o mais natural possível. Não quero exercer o papel de juiz, nem professor ou qualquer personagem investido de poder e segurança para mostrar quem é o melhor. Desta forma, evito  demonstrar minha impaciência e respeitar o tempo e o limite do outro. Falo isso, porque fico me perguntando sobre uma pessoa que vem a minha casa, pelo menos uma vez no ano, nos verões, quando vem ao Cassino. Na verdade, eu o conheci através de outras pessoas, e nem tinha motivo de ser seu amigo, apenas procurava ser gentil e educado nos poucos encontros que tivemos em comum com outros conhecidos. Via de regra, vem no meu aniversário, mesmo que não seja convidado. Não reclamo, já acostumei com sua presença e sei o quanto é sincero. Uma vez ao ano, quando vem também me convida (eu e minha família, para um churrasco especial, que faz somente para nós). Fico pensando no porquê de tanto desvelo, uma vez que não é meu parente e a amizade, sem nenhum cinismo, se dá quase em via única, do lado dele, porque para ele, parece que há um lastro que consolida uma amizade eterna. Não que eu o dispense, ao contrário, sempre o trato com a maior sinceridade e gentileza, mas somos pessoas tão diferentes, que se torna extremamente difícil uma jogada de tênis, na qual os dois jogadores tem objetivos comuns. Se eu fosse um cara extrovertido, talvez ele tivesse motivos para me procurar. Ao contrário, sou meio quieto, até mesmo em virtude das dificuldades em que ele apresenta. Jamais poderia falar nos assuntos que me interessam com ele, pois somente concordaria com um rãrã absorto, provavelmente olhando ao longe, para o outro lado da rua, observando os carros que passam. Via de regra, seus assuntos prediletos referem-se ao celular de última geração que acabou de comprar, do carro ano 95 que está tinindo de novo, do último dvd da banda de pagode, das fotos dos sobrinhos, dos passeios que faz na praia e do exame destes assuntos meia hora depois, repetindo tudo de novo. O interessante é que ele sabe de cor qualquer dia do ano em que tenha feito uma compra, como por exemplo comprou um aparelho toca-discos 2 em 1, com prato para lp, toca fitas e rádio am fm, nas Lojas Colombo, no dia 19 de abril de 1988, dia do índio. Ou a tv preto e branco de 21 polegadas, da marca Philco nas lojas Manlec, em 1982, no dia dos namorados. Por isso, não esquece jamais as datas de aniversário, inclusive, a minha (e olha que não havia facebook). Acabo, por fim, ficando naquela estratégia de perguntar em círculos sempre a mesma coisa, que lhe diga respeito e intervir com uma e outra sobre mim, que também possa lhe sugerir algo referente a ele. Por isso, indago a mim mesmo e aos que me conhecem, por que ele sempre me procura com esta absoluta sinceridade, que embora apresente um certo egocentrismo, sempre procura me agradar de uma forma ou de outra, ora convidando para um churrasco, ora trazendo as fotos que tirou num dos aniversários  para mostrar, ora trazendo um dvd para assistir, mesmo que não seja o meu gênero preferido, mas que imagina, com convicção infantil, que me alegrará sobremaneira.

Por estas e por outras, sem querer propalar meus bons sentimentos, talvez seja exatamente isso, essa maneira honesta de ser, sem vislumbrar meus interesses pessoais, sem me importar com as horas que vão naquele mate de vai e vem, sem ouvir muito mais do que o silêncio. Talvez seja um ato de doação. Mas não é só pra ele, não, que nem se dá conta. É pra mim, também, no momento em que me dispo um pouco do que sou e fico mais próximo do ser humano. Afinal, ser amigo também é uma qualidade humana. Acho que é isso. Não ter muita paciência e às vezes, até procurar, disfarçado, as horas no celular, ocorre sim, mas a diferença é que o aceito como é. Muitos que o conhecem, o tratam como um idiota, como uma criança a quem se dá ordens e se exige pouco para não encher o saco. Pelo contrário, procuro sempre ressaltar as suas qualidades, inspirá-lo para que melhore em seus projetos, que são talvez medíocres para a maioria das pessoas, mas que para ele, são grandiosos, como tirar a carteira de motorista para dirigir o carro que comprou. Não lhe dou conselhos nem faço ressalvas em suas atitudes. Ouço o que tem a dizer e dou a minha opinião, sem muitas reservas. Procuro falar das coisas que lhe dizem respeito, e acrescentar-lhes um frescor que normalmente não teriam, por mais simples e banais que possam parecer. São coisas suas. É a sua vida. Por isso, acho que intui uma certa cumplicidade com a sua percepção de vida.

Mas voltando às redes sociais, como no início da crônica, observo que algumas pessoas que conheço (ou assim acredito) demonstram qualidades completamente estranhas em seus perfis públicos, a ponto de pensarmos que se trata de outra pessoa completamente diferente. E fico me perguntando, será que eu estou equivocado? Que elas são exatamente como aparecem na rede e que na vida real não passam  de um produto de minha imaginação? Nem sei se há uma intenção de exibirem uma personagem diferente ou se acreditam que a persona que criam é a sua realidade interna. Quem sabe, uma inspiração para uma vida melhor? Um upgrade de mais qualidade? Afinal, todos somos enigmas, até mesmo para nós mesmos. Temos cavernas escuras em nossas mentes que não mostramos para ninguém, até mesmo para nós mesmos. E o quando o fazemos, tomamos um choque e juramos de pés juntos que foi tudo um sonho. Que é obra do destino ou da manipulação do terapeuta. Entretanto, afundado em minhas próprias cavernas e a cada dia, tirando um pé, pra chegar no claridade do dia, procuro mostrar minhas preferências, sem me preocupar muito com a aprovação alheia. Claro que gosto que curtam e comentem o que posto, mas fico feliz que os que pensam diferente, não aprovem ou concordem com o que digo, pois estes estão sendo sinceros, como sou com aquele amigo, sem quererem me agradar simplesmente. Neste caso, a discussão proporciona um pluralismo de ideias interessante. Mostro claramente que sou de esquerda, mais especificamente socialista, que assumi de acordo com minha visão de mundo, dos valores que aprendi. Afinal, como diz Cazuza, todos precisam de uma ideologia pra viver. E cada um tem a sua. Que bom que seja assim. Sou a favor das cotas, do bolsa família, das maiorias das bolsas que pululam por ai, das medidas sociais, enfim.

Respeito os que pensam diferente, critico, discuto e aceito as críticas. Por outro lado, exacerbo o meu gosto pela literatura e faço da escrita o meu ritual diário. Também adoro viajar e de vez enquanto, posto alguma coisa que lembre as viagens que participo. Cenas que considero curiosas ou bonitas. Também falo alguma coisa em música e os que verem meu perfil, percebem que gosto muito do Chico e que procuro assistir seus shows. Também gosto de filmes, principalmente os que tem conteúdo dramático e faço algumas resenhas nos meus blogs. Falo um pouco em religião e tenho que estar sentindo muito aquela emoção religiosa para expressar alguma coisa, porque não quero repassar nada falso. Às vezes, sinto que sou um chato, porque insisto em alguns assuntos, como o horror à ditadura e por isso, sou muito cobrado e criticado. Mas tudo bem, se não me  mostro como sou na realidade, pelo menos não douro a pílula, me mostrando um santo no altar do facebook.  Por isso, fiquei pensando neste meu amigo, que tem estas dificuldades físicas e creio, também, mentais, embora exerça suas tarefas com absoluta competência.  Nesta pessoa que confia em mim, e que tento ser paciente, aceitando-o como é. Também, em virtude disso, lembrei de um livro que a  maioria dos adolescentes leram ou ainda lêem. Também o li, certa vez e naquela época me impressionou o modo como o autor descrevia as relações humanas sob imagens  metafóricas, através da raposa, da rosa, do príncipe de outro planeta, do geógrafo, do bêbado. São pessoas em absoluta solidão, que finalmente se deparam com o sentimento, assim despertado pela raposa, que diz ao menino, a frase tocante, que expressa o real significado da vida. “Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.  Através desta lembrança, tive um pequeno insight, que não é nada original, mas que centenas de pessoas já descobriram nas suas relações com o próximo. Todos querem ser cativados, de alguma forma. Na redes sociais, nas festas, nos encontros, no dia a dia, até mesmo nas relações quase imperceptíveis do comércio, onde estamos via de regra preocupados com o produto e o comerciante com a própria venda. A raposa queria ser cativada. E o que fazer, perguntou o Pequeno Príncipe. “Você deve ser muito paciente. Eu não preciso de ti.Tu não precisas de mim. Mas, se tu me cativares, e se eu te cativar…ambos precisaremos, um do outro. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Saint-Exupéry sabia dessas coisas.” É só preciso paciência.

Um amontoado de ossos

Percebia um corpo franzino que se esgueirava rápido, por entre as árvores. Árvores que se escondiam do sol poente, pincelando raios aqui e ali. A noite já se aproximava e o parque, aos poucos, ficava deserto. De repente, ela sentou num dos bancos, de forma inopinada, como se houvesse assustado de alguma coisa. Podia vê-la de longe, e por um momento, pensei em retirar a câmera da mochila e fotografá-la. Mas foi só por um momento. Meu coração disparou, assustado. Ela despencou literalmente no chão. Fiquei meio paralisado, mas em seguida, corri até o banco onde ela estava e abaixei-me, tentando descobrir o que estava ocorrendo, mais do que isso, queria ajudar. Ela estava no chão, a cabeça estirada próxima aos pés do banco de pedra. Ao seu lado, um cachorro preto, pequeno e cheio de sarna, olhava compassivo, como se soubesse o que acontecera. Ou como se fosse rotineiro.
Tentei acordá-la, olhei para os lados, para ver algum passante por perto que me acudisse. Um que outro olhava de longe e se afastava ainda mais. Peguei a sua cabeça entre as mãos. Era tão pequena aquela cabeça, que parecia um crânio vazio, sem cabelos, sem pele, sem couro cabeludo, apenas ossos. Era leve. Tão leve, que nem parecia de um adulto. Pior, de um ser vivo. Ela abriu os olhos que se revelavam ainda maiores, talvez pelo rosto mirrado. Parecia ensimesmada, como quem diz, o que este cara quer aqui? O que faz ao meu lado? Moveu a cabeça, tentou levantar-se. Falei, que bom, já está melhor. Que aconteceu? Você se machucou? Não respondeu. Conseguiu sentar-se, ao lado do banco, no chão mesmo. Esticou as pernas finas, envolta em andrajos sujos e os braços seguravam-nas como se tentasse se equilibrar.  Senti que as mãos tremiam. As mãos, ao contrário da cabeça, eram grandes, disformes, com sulcos esbranquiçados nos dedos escuros. A pele negra nem tinha uma cor definida, como se o sol, o tempo, o vento ou qualquer fenômeno da natureza a tivesse desbotado. A boca era carnuda, mas era da mesma cor da pele. Não era nem avermelhada. Tentei ajudá-la a levantar-se. Ela me empurrou. Tinha medo de mim. Queria afastar-se de qualquer jeito. Por certo, dispensava a minha proximidade. Eu era um estranho, que se intrometia na sua vida. Vida. Era aquilo que ela tinha e que me parecia um resquício de sobrevivência. Era o que lhe restava.
O cachorro levantou-se também. Lambeu-lhe as pernas finas e sujas. Agora percebi como eram finas e a roupa que cobria  seu corpo estava em pedaços. Nem sei o que se podia chamar de roupa, tal era o estado de sujeira e farrapos em que se encontrava. Havia uma sacola velha, com mais trapos guardados, eu supunha. Estava sobre o banco. Ela segurou-a, empurrou o cão com o pé descalço e para minha surpresa, não foi embora. Sentou-se no banco e ficou ali, olhando para si mesma. Calada, enfiada em suas mais profundas memórias ou na falta delas. Mastigava um ar de nostalgia que me doía o coração. Nem sei porque eu continuava ali. Eu nunca fui dado à solidariedade exacerbada, a ajudas humanitárias. No máximo, levava um pacote de biscoitos a alguma campanha de Natal. O que eu tinha, na verdade, era curiosidade. Mas aquela mulher me tocou. Nem sei se porque eu estava numa fase meio de desamparo, porque há pouco tempo estava sozinho ou porque estava ficando velho, pensei. O fato é que precisava fazer alguma coisa. Não sentei ao seu lado, pois sei que se o fizesse, certamente, ela levantaria de imediato, por mais dificuldade que tivesse. Fiquei em pé, meio distante, eu e o cachorro que agora se preocupava com o seu rabo, procurando-o em círculo. Mesmo assim, distante, eu tentei falar-lhe: — Você está bem agora?
Ela nem me olhou. Ao contrário, levantou a cabeça para o horizonte. As árvores ficavam atrás. O sol ficava na frente. O sol que enfraquecia, cujos raios já nem se viam, só uma luminosidade difusa que também ia morrendo. Daqui a pouco, a noite chegava. O que ela faria à noite?
— Você bateu com a cabeça. Não ta doendo?
Desta vez, ela se virou na minha direção. Pude ver que devia ter uns 30 anos, se bem que talvez tivesse bem menos, uma pessoa naquela condição pode representar bem mais. A pele ficou mais escura com a diminuição da luz, mas pude ver um certo brilho nos olhos. Um brilho que me incentivou a continuar.
— Não está com fome?
Ela falou alguma coisa ou tentou falar. A voz era gutural. Como oriunda de um túnel. Talvez não não falasse com alguém há muito tempo. Mesmo assim, ela proferiu  alguma coisa, o que era um avanço. O maior desafio agora, era entender o que queria. Voltei a perguntar: — Está com fome?
Ela esboçou um sorriso, que me fez estremecer. Abriu a boca, na qual surgiu mais gengiva do que dentes, aliás um que outro se escondia quase no final da arcada. Foi aí que ela apontou para o cachorro.
— O cachorro? Ele está com fome?
— Cachorra. — agora entendi, ela me corrigia e com bastante consistência. Tratava-se de uma cadela, não  de um cachorro. Aquilo era importante para ela. Era a sua companheira, por certo.
— Cida.
_Cida? – perguntei meio bobo. Falava da cachorra ou dela? Quem era Cida? Cida, Aparecida, devia ser ela. Mas ela repetiu a frase, afirmando que Cida estava com fome.
Mas Cida poderia ser ela e ela estaria certamente com fome, mas como garantir a mim mesmo que ela se referia ao animal, assim, categoricamente. Como perguntar a ela e revelar que no fundo, eu confundia a cachorra com ela? Não apenas pelo nome, mas até pela situação. Eram tão parecidas! E estavam com fome. Tudo acontecia em nível interno, quase inconsciente, em que meus pensamentos se misturavam com centenas de experiências que não conseguia interpretar.   Eu não sabia muito bem o que dizer, o que pensar, e só dizia bobagens. Na verdade, eu estava confuso. Talvez tão confuso, quanto ela. Na verdade, tinha comigo de que ela não passava de uma uma louca, provavelmente drogada, e quase uma certeza,  usuária de crack. Sim, sem dúvida. Quem seria aquela mulher mirrada, de vida espremida num fim de dia num parque cuja vida passava por ela. Havia mais vida na cadela, certamente. Uma mulher infeliz. Uma mulher que acabara de cair, de desmaiar, não tinha certeza e que agora mostrava-se somente preocupada com a cachorra, que tinha fome. E ela? Não tinha fome? Não, ela queria drogas, só isso.
—Cida está com fome? — apontei para a cadela. Ela sorriu mais uma vez, agora concordando. Aquele sorriso que eu não gostaria de rever. O sorriso disforme, atravessado entre poucos dentes e gengiva mole. Sorriso nefasto de quase animal. aliás, chegava a parecer-se com a cadela, tal a deformidade da boca. Enviesada, amolecida. Então, indaguei, enfático, tentando ser entendido:  — e você, não está com fome?
Ela abaixou a cabeça, como quem diz, que interessa agora. Alguém tem que se salvar. Que se salve Cida.
Então, acrescentei que traria algum alimento para Cida e também para ela. Ela me olhou mais uma vez, acho que seria a última, porque seus olhos estavam tão vazios e perdidos, que pensei que fosse morrer naquele momento.
Afastei-me rápido, atravessei o parque, procurei uma lancheira no outro lado da rua e em seguida, estava de volta. Cida parece que sabia o que eu ia fazer, porque me seguiu o tempo todo. A cada contorno que fazia, ela me acompanhava solidária e esperançosa. Quando me dava conta de voltar-me, observa-a que me olhava agradecida. Quase sorria. Um sorriso tão semelhante ao da mulher, mas que me deixava feliz, porque era o sorriso de Cida. O sorriso da cadela. Comprei um sanduíche e já na saída da lancheira, dei-o a ela que o engoliu quase instantaneamente. A baba ainda escorria da boca, quando lambia o prato de isopor. ” Você está com fome, mesmo, hem Cida. Não adianta pular em mim, este é pra sua dona. Depois, te dou outra coisa, noutra hora.”
Atravessei a pequena viela que conduzia até o interior do parque. Vi ao longe, já quase na escuridão, um amontoado de ossos, encostado no banco. A mulher estava com a cabeça baixa, coberta por um pano, que lhe tapava a boca. Aproximei-me com o lanche. Tentei entregar-lhe, mas ela nem me reconheceu. Cheirava alguma coisa numa lata e se enrolava ainda mais num trapo sujo. Cida afastou-se de mim e se aproximou célere, da dona. Sentou-se ao seu lado, como se  compartilhasse seu drama. Permaneceu ali, compassiva, esperando. Talvez esperasse horas por alguma reação. Ou não esperasse nada. Nem um afago na cabeça, um sorriso, um coçar na barriga. Talvez apenas esperasse um empurrão em suas coxas magras. Era de hábito. Um hábito bom, do qual ela já se acostumara. Era o carinho que lhe restara. De todo modo, estava alimentada. De vez enquanto, seu olhar pairava no movimento tépido das folhas da árvores, investigando algum movimento diferente. Mas eram apenas as folhas, agora amarelecidas pelas lâmpadas néon que que se mexiam na noite cada vez mais escura  Somente voltou-se, encantada, quando joguei o lanche que trouxera ao seu encontro. Agora, não o engoliu de uma vez, abanou levemente o rabo, satisfeita e o deixou por um momento ali, talvez pensando que não era para ela. Mas foi só por um momento. Cheirou, cheirou e o engoliu em seguida. Mais devagar, a bem da verdade, mas o engoliu por inteiro.
Afastei-me. Segurei firme a mochila com medo de voltar a atravessar o parque, em virtude dos assaltos. Toquei na câmera, pelo lado de fora, para ter a certeza de que ela estava ali, dentro. Depois, afastei-me devagar. Dei uma última olhada para a cena. Cida voltava a observar as árvores.